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Cecília Meireles



quinta-feira, 5 de maio de 2011

Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar


Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar

crônica de Moacyr Scliar


O título desta crônica foi tirado de um samba do grande Adoniran Barbosa: um rapaz explica à namorada que “não posso ficar mais nenhum minuto com você/sinto muito, amor, mas não pode ser” porque a mãe não dorme enquanto ele não chega.

De maneira geral, pais não dormem. Podem deitar, fechar os olhos, podem até roncar - mas na verdade não estão dormindo. Quando os filhos são pequenos, estão atentos a qualquer chorinho, a qualquer gemido; quando os filhos são maiores, ao contrário, é o silêncio que os mantêm despertos; o ominoso silêncio do quarto vazio: o filho ou filha não estão, foram a um aniversário, a uma festa. Que terminará … Quem sabe quando termina uma festa de adolescentes? Para eles a vida é uma festa permanente, na qual o relógio é um corpo estranho.

Enquanto isso, os pais esperam. Poderiam não estar esperando, claro; poderiam ter dado a chave ao filho ou à filha. Mas dar a chave é um gesto simbólico para o qual os genitores nem sempre estão preparados, e que, de qualquer modo, não garante um repouso reparador; este só pode ter início depois do abençoado ruído da dita chave girando na fechadura.

O que fazem os pais enquanto esperam? Uns fingem dormir. Outros rolam na cama, inquietos. E há os que se levantam e vão preencher estas horas, que afinal são parte de sua vida, com algo que alivie a ansiedade, e que seja útil. Conheço uma senhora que usa esse tempo para ler a Enciclopédia Britânica; já está no volume 16 (Mush to Ozon) e ainda não recuperou a tranquilidade. Há um pai que vê todos os filmes do madrugadão; segundo ele, uma noite dessas o James Cagney o mirou da tela e disse: “Vai dormir, rapaz! Já estou farto de te ver aí todas as noites!”

Mas os pais não dormem. Como Macbeth, eles ouviram a ordem fatídica; “Sleep no more!” (ainda que, diferente de Macbeth, eles não tenham culpa alguma; ou talvez tenham; quem sabe o que se passa no coração dos pais?). Seu suplício nada tem a ver com a idade do filho. Amigo meu, divorciado, voltou a morar com os pais; precisava de um tempo para se recuperar do trauma. Um tempo que ele teve, contudo, de abreviar – porque, cada vez que saía, a mãe lhe dizia: não vá voltar tarde, meu filho! E, cada vez que o programa noturno estava a ponto de gerar um romance, ele se lembrava da mãe acordada, a esperá-lo, e voltava. A insônia dos pais é eterna e incurável.


Fonte: SCLIAR, Moacyr. Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar (e outras crônicas). Porto Alegre: L&PM,2009. p. 23-24.

Este livro e outros do escritor Moacyr Scliar estão disponíveis para empréstimo na Biblioteca Cecília Meireles.

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